Poesia
CAMPEIRA MULHER
10/04/2026
A poesia retrata a força, resistência e protagonismo da mulher campeira ao longo da história do sul do Brasil. Ela é apresentada como pioneira, guerreira e essencial na construção da vida no campo — enfrentando dificuldades, solidão e trabalho duro, mas também preservando tradições, fé e identidade. Em síntese, é uma homenagem à mulher que ajudou a formar o pampa, com coragem, dignidade e raízes profundas na cultura gaúcha.
Feito as filhas de Tupã
fui trazida pelos ventos.
Sou a mulher pioneira,
sou peona galponeira,
seiva da estirpe campeira.
Cresci dormindo ao relento
desta terra abagualada.
Fui sinuelo pela estrada,
demarquei novas fronteiras.
Ao giro dos cata-ventos,
vi surgir a raça nova
para as horas do futuro.
Em louvor a esta terra,
fui grito dos esquecidos
em dias de desalentos.
Nas tristes noites de calma,
brotavam, do subconsciente,
velhas rezas avoengas
sofrenadas dentro d'alma.
Também fui mescla de sangue
da pura cepa caudilha
e no estertor farroupilha
fui amparo das trincheiras
forjando a estampa guerreira
timbrada ao sol curunilha.
Fui molde da fibra altaneira
levando no peito a bandeira
dos entreveros de guerra.
Me temperei nas invernias,
suportei brabos mandados.
Nas inquietas calmarias
- ao retinir das esporas -
fui as prosas galponeiras
no lusco-fusco da aurora.
No chimarrão, à tardinha,
amarguei a solidão.
Num fado imaginário
fui esteio para as casas
- tapera no coração -
E nas contas do rosário
rezei as dores sofridas,
chorei misérias sentidas
na dura faina da vida.
Meu suor foi vertente rasa
em dolente singeleza.
Andei minguando asperezas
pelos confins do rincão
e trago a face marcada
pelo sulco das tristezas,
- como coxilhas lavradas
ao sol-a-sol do meu chão.
Tranquei meu rumo solita,
levando o pago nos tentos.
Ao calor do fogo votivo
semeei o sangue nativo
da nova raça aflorada:
- numa tristeza pungente
do barbarismo primitivo. -
Vivendo em muitas eras,
fui saudade nas esperas,
entre arado, gado e fogão,
plantando novas quimeras
pra uma nova geração.
Fui mulher guapa, na essência
e na alvorada do pampa
me transformei em querência
pela força das minhas mãos !